A Alemanha faz parte dos países que são a favor de reformas adequadas das organizações internacionais. Há bons motivos para tanto: por um lado, não existe outro país que esteja tão amplamente integrado política, econômica e militarmente na cooperação multilateral. Por outro lado, a política externa alemã atende à enorme responsabilidade que lhe foi atribuída pela comunidade mundial. Nesse contexto, a Alemanha está empenhada numa reforma abrangente das estruturas da ONU, que engloba também a obtenção de um assento permanente no Conselho de Segurança.
A formação de uma identidade européia de segurança própria é, para a política externa alemã, uma contribuição essencial para reforçar e estabilizar o pilar europeu da Otan. Uma etapa no processo de transformação transatlântico foi a transferência, em dezembro de 2004, do comando das tropas na Bósnia Herzegóvina da Otan para a Pesd (Política Européia de Segurança e Defesa). A partir daí, os europeus, com as tropas chamadas de Eufor, tiveram que controlar pela primeira vez um foco de guerra essencialmente com seus próprios meios (Pesd/Pesc).
O novo espaço de ação da política externa, que a Alemanha adquiriu com a reunificação em 1990, foi utilizado pelo governo federal somente depois da passagem do século. A declaração alemã após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 não só foi imediata como o chanceler Schröder foi muito mais adiante que seus antecessores, assegurando aos Estados Unidos a “irrestrita solidariedade” alemã. O governo federal assumiu naturalmente a decisão da Otan que, em 2 de outubro de 2001, pela primeira vez na sua história, invocou o artigo que trata um ataque a um Estado membro como um ataque a todos. A missão alemã no Hindu Kush, daí resultante, teve um componente político e um militar: o primeiro foi a Conferência para o Afeganistão, realizada em Bonn, e os acordos finais sobre as bases legais e políticas para um governo de transição.
O segundo, a participação das Forças Armadas alemãs (Bundeswehr), desde janeiro de 2002, em grande escala, na Isaf (Força Internacional para a Segurança no Afeganistão). Dez mil soldados alemães ao todo participaram de diferentes missões da Otan no início dessa década, mesmo sem que a reestruturação da Bundeswehr de um exército territorial em um exército flexível “em missão” tivesse sido ainda concluída. Essa disponibilidade para assumir uma responsabilidade ampla foi simultaneamente um argumento decisivo, quando se tratou de justificar a não-participação na invasão do Iraque em 2003. O fato de a política externa alemã poder considerar essa situação e estabelecer prioridades com soberania ilustra o novo papel que se impôs ao país.
Ao mesmo tempo, a política externa alemã fomenta a formação de estruturas da sociedade civil, participando da ajuda em casos de catástrofe, da implantação da democracia e dos direitos humanos e no combate ao terrorismo. A Alemanha usa efetivamente seu novo papel também para impôr e garantir os direitos humanos, a paz e o diálogo, no Oriente Médio e em outras regiões de conflitos. O fato de a Alemanha poder desempenhar esse papel se deve à confiança acumulada e cuidadosamente administrada durante décadas. A política alemã não é medida segundo a obra devastadora do III Reich, mas segundo o seu desempenho na construção e integração. Sem essa constatação, os Aliados dificilmente teriam concedido a “liberdade” aos alemães. A Alemanha demonstrou que sabe agir com responsabilidade.